Francesinho duro na queda

Gosto pela aventura: o Raid 2CV é um passeio de amigos por terrenos exóticos, sem competição. Por Jason Vogel

Vegetação de caatinga, calor de 40ºC, poeira fina de travar câmera fotográfica… o mais popular dos carros franceses parecia ter encontrado seu ambiente natural. Na árida divisa do Piauí com o Maranhão, a coluna formada por 33 super coloridos Citroën 2CV despertava a curiosidade dos locais. Professores liberavam as crianças das salas de aula; adultos cercavam a caravana cheios de perguntas:

-É tudo Fusca?

-Vocês tão arrodeando o mundo nesses carros?

– É rali?

Ainda muito brancos em seu primeiro dia de aventura, os franceses se limitavam a rir. E tentavam alguma comunicação, por gestos ou no idioma de Balzac.

Contatos imediatos assim se repetiram ao longo de duas semanas, enquanto o Raid 2CV Brazil 2011 percorreu o Nordeste do país. Na aventura, realizada entre o fim de outubro e o início de novembro, “citroneiros” europeus rodaram por 2.200 km de estradas bem asfaltadas, esburacadas ou, de preferência, inexistentes.

Apesar do nome em inglês, a expedição foi comandada por um francês – Jean-Pierre Lenfant, que convive com os Deux Chevaux  (dois Cavalos) desde que estudava medicina, na década de 60. O pequeno e versátil Citroën era, então, o modelo favorito da juventude. Do estacionamento da faculdade, os garotos iam cada vez mais longe com seus 2CV: Espanha, Tunísia e, por fim, corriam a África  inteira. A própria fábrica patrocinava muitas dessas expedições voltadas para universitários, como uma maratona de ida e volta ao Irã.

Na década de 70, Lenfant comandou as equipes médicas dos primeiros ralis Paris-Dakar. Desde 1985, ele organizava a Peter Pan productions, associação de amigos que têm em comum a paixão pelo Deuche (é esse o apelido francês do modelo) e amor por aventuras em terrenos exóticos e agrestes. Na França, há vários grupos assim.

uase todos os participantes da expedição pelo Nordeste do Brasil eram franceses, mas haviam algumas duplas de syíços e belgas. As idades variavam: desde moças de 20 e poucos anos até um octogenário. É uma turma que se cotiza (3.100 euros por pessoa) e, a cada dois anos, cai na estrada para uma viagem de férias.

Os carrinhos e seus tripulantes já rodaram o mundo, como atestam os adesivos coloridos e as inscrições nas portas e nos capôs. Em edições anteriores, foram da Mongólia à China, cruzaram os Andes, percorreram o marrocos e rodaram pela Patagônia.

Dessa vez, os 33 carros viajaram em navio de Le Havre ao porto de Pecem, a 58 km de Fortaleza. Além dos pequenos Citroën, vieram veículos de apoio, trazendo peças de reposição impossíveis de serem achadas por aqui. O mais impressioante era um Pinzgauer 6×6, modelo com jeitão militar fabricado na Áustria.

Acompanhei os dois primeiros dias da viagem por trechos entre a capital do Ceará e São Luis do Maranhão, sempre pelo interior. Apesar de gostar muito de seus 2CV,os participantes não têm frescuras com os carros, que são submetidos a buracos, areia e até travessia de rios. Sem ponte.

Nesses passeios roda-se  da manhã até a noite. Os aventureiros são, na maioria, senhores e senhoras de meia-idade, que trabalham em escritórios ou repartições públicas na França. Quem os vê, se espanta com tanta disposição para dirigir por tanto tempo sem parar. Para não ficar pelo caminho, os carros são preparados com amortecedores mais robustos, reforços nos braços de suspensão, “bacalhaus” no chassi e enormes filtros de ar para segurar a poeirada e a areia. Os pára-lamas são recortados para facilitar as trocas de pneus e os ângulos de entrada e saída.

O Citroën 2CV foi produzido de 1948 a 1990, mas era difícil precisar a data de fabricação dos inscritos, já que todos misturavam peças de três ou quatro modelos de anos diferentes.

Não há competição, apenas um passeio de amigos. Nesse tipo de rali, todos são ganhadores e a paisagem é o troféu. “É tudo por aventura e prazer. O 2CV é um carro simpático e fácil de consertar. E nessas viagens encontramos um monte de gente diferente”, diz Marie-Laure Didillon, integrante do Yellow Team, grupo que trouxe três Citroën amarelos.

Mesmo com tração apenas nas rodas dianteiras, os carrinhos venceram atoleiros e grandes trechos de areia. O segredo está na leveza: um 2CV vazio pesa 560 quilos. Encalhou? Empurra-se…

Sobre estradas de terra, esburacadas, andavam a 70 km/h. No asfalto liso, os Deuches passavam dos 105 km/h. Bela marca para seu motorzinho de dois cilindros refrigerados a ar, de modestos 602 cm³ e potência em torno de 30 cv (Dois Cavalos é apenas o nome fantasia do carro).

Há preparadores que adotam o motor do extinto Citroën Visa, que tem a mesma arquitetura básica, mas com cilindrada de 652 cm³. Um verdadeiro bólido.

Para encarar esses passeios, é preciso habilidade mecânica. A cada amanhecer no acampamentos, os donos consertavam o que fora estragado na véspera. E, sempre que alguém, parava no caminho, o resto da turma ajudava. Após um início pelo sertão, a volta foi por lugares paradisíacos do litoral de Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. São cenários desconhecidos da maioria dos brasileiros: Lençóis, Santo Amaro, Barreirinhas, Camocim, Mandaú, Guaramiranga, Morro Branco, São Miguel do Gostoso… Algumas vezes a travessia tinha que ser feita por jangada.

Os participantes se deslumbravam com as paisagens, mais surpreendentes a cada dia. “O Brasil se presta bem ao uso do 2CV. Ele tem a simpatia dos habitantes, sempre receptivos”, completa Lenfant.

A grande maioria dos 2CV chegou ao fim da viagem rodando pelos próprios meios. Planejada ao longo de dois anos, a expedição foi um sucesso.

Problema mesmo, só com a burocracia e as taxas portuárias. Por esses motivos, a largada passou de Belém para Fortaleza. E, no fim, os carros tiveram de voltar à França pelo porto do Rio (para onde foram levados de caminhão-cegonha).

O próximo destino? Algum paraíso perdido. Essa turma sabe levar a vida…

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